Animais em Pesquisa

Considera-se que o triunvirato da experimentação animal seja constituído por François Magendie (1783 – 1855), Claude Bernard (1813 – 1878) e Louis Pasteur (1822 – 1895). Magendie era famoso por atos de crueldade para com os animais, tendo sido alvo de vigoroso protesto em Londres, em 1824. Atribui-se a Claude Bernard a postura que impregna até hoje nossa cultura acadêmica, de que os cientistas devem ser “frios”. E quanto a Pasteur, consta de sua história que ao ser convidado por D. Pedro II para tentar resolver grave surto de febre amarela no Rio de Janeiro, em 1873/74, teria colocado como condição, a possibilidade de testar suas vacinas em presidiários brasileiros, proposta que nosso nobre imperador, felizmente não aceitou.
Não estou querendo denegrir a imagem de tão importantes cientistas mas, simplesmente caracterizar o modelo de conduta e de pensamento da época. Os animais eram tidos como “coisas”, conceito firmado por outra notável figura histórica (ninguém é perfeito), René Descartes, no século XVII. Admitindo a sensibilidade como atributo da alma, que por influência religiosa restringia apenas os seres humanos, recomendava que uivos, lamentos e gemidos de animais deveriam ser interpretados como automatismos da “máquina”, à semelhança do que acontece com o chiar de uma roda de carroça em movimento.
É claro que, permeia todo esse cenário, o antropocentrismo, forma de pensamento e de conduta que objetiva apenas o bem-estar do ser humano, recomendando-se, ainda, a exploração da natureza em seu benefício. Assim, servindo ao progresso da ciência, os animais foram disponibilizados e o modelo passou a ser adotado mundialmente. Claude Bernard mesmo havia deixado claro que “temos o direito de realizar experiências e vivissecções nos animais de forma indubitável e completa” pois, apesar de não serem eles as “cobaias” perfeitas, estão fora da esfera das preocupações morais humanas, sendo, por isso, considerados seres “eticamente neutros” (eu sublinhei).

Essa postura de se admitir que isso ou aquilo “não tem alma”, é mera estratégia para exercício de poder. Nós, mulheres, ficamos sem alma até poucos séculos atrás, os escravos – há pouco mais de cem anos, também não tinham alma e parece que com os animais, esse modelo ainda continua. Um momento – não estou falando em “alma” no sentido religioso. Para permanecer no discurso acadêmico, remeto à origem latina (animus) do termo, que também significa mente, psique, psiquismo.
Centenas de publicações científicas nas ultimas três décadas vem demonstrando categoricamente que os animais sofrem física e mentalmente, têm memória, emoções, inteligência, fazem associação de idéias, aprendem coisas novas e elaboram estratégias de comportamento.
Então, entram em cena novas informações, que não podemos desconsiderar. A Dra. Silvana Castignone, professora de Filosofia do Direito da Universidade de Gênova, em seu livro Povere bestie – I diritti degli animali, assim se manifesta: “Os animais não são, na verdade, ´eticamente neutros´, uma vez que existem precisos deveres morais dos homens para com eles…
independentemente do fato de a vivissecção ser útil e/ou necessária…”
Duas questões se apresentam, a partir daí:

– os animais não são “cobaias perfeitas”, o que já foi previamente admitido por Claude Bernard.

– o dever moral do ser humano para com os animais, com as vertentes direito natural e compaixão.

Hoje é inquestionável o conceito de que os animais não são máquinas insensíveis, não são “coisas”. São seres sencientes, do latim sentiens = que sente. Importante é lembrar que “sentir” é também função cognitiva, pois é necessário se interpretar o tipo de estímulo que se está recebendo, se favorável ou nocivo, para senti-lo desta ou daquela forma. Aliás, Gregory Bateson, nos anos de base 60 já definia mente como o processo cognitivo de expressão da vida. Bateson não apenas derrubou a concepção cartesiana da existência dessa dimensão, apenas nos seres humanos, como entendeu que sua presença alcança todos os seres vivos.
Quanto ao direito natural dos animais à própria vida e de não serem subjugados a situações de dor/sofrimento, Peter Singer, autor de Animal Liberation, declara : “Eu não `adoro´ os animais, não vivo com cães e gatos no colo, mas simplesmente desejo que sejam tratados como seres sencientes e independentes que são, e não como meios para fins humanos”. Em sua obra “Vida Ética”, afirma que “um movimento de libertação requer expansão de nossos horizontes morais”
No enfoque do que se chama de “compaixão”, argumento intolerável pela academia (resíduo da recomendação de Claude Bernard), prevalece o enunciado de Jeremy Bentham; “Não devemos perguntar se os animais são capazes de raciocinar ou de se comunicar mas, se são capazes de sofrer!”. Na publicação “Animal Research is wasteful and misleading”- Cientific American, USA, 1997, de Barnard, N.D. e Kaufman, S.R., lê-se; “O estudante que se recusa a participar de atividade que pareça ser ou que é cruel aos animais, deve ser encorajado e não desestimulado. Compaixão é muito mais difícil de ensinar, do que Anatomia”.
Mas temos ainda de considerar a questão já levantada por Claude Bernard, de que o modelo animal está longe de representar uma opção segura para inferências em outras espécies. A Liga Internacional de Médicos pela Abolição das Experiências com Animais, liderada pelo Dr. Bernhard Rambeck, no trabalho “O Mito das Experiências em Animais”, divulgado em Genebra, em 1994, revela que “as experiências com animais não representam apenas um método cruel – e por isso antiético – mas, são também destituídas de validade científica. No interesse do homem e dos animais, precisam ser abolidas…”. Essa liga considera a utilização de modelos animais, um “erro metodológico”, sendo o caso da talidomida, um dos exemplos mais citados. Recentemente, o anti-inflamatório Viox foi retirado do mercado pelos efeitos deletérios que se manifestaram, apesar de ter passado por todos os testes com animais e por isso ter sido considerado seguro.

Estamos em mudança de paradigma, de antropocêntrico para biocêntrico ou ecocêntrico, em que a proposta é mudarmos da subjugação para a harmonia, da competição para a cooperação, da fragmentação para o holismo. Estou convencida de que o progresso intelectual leva ao progresso moral, pois foi pelo entendimento de que os animais também sofrem, que hoje desejamos um patamar acima, em nossa postura moral. Nela não cabe mais o jugo, a exploração, a indiferença para com a vida e a sorte dos outros seres vivos. O mundo todo clama por um novo modelo e os próprios cientistas que já despertaram para essa nova consciência estão se manifestando. Donald Griffin, autor de Animal Minds assim se posiciona: “Em termos científicos…nossa antiga premissa de que os animais não tem consciência, está se tornando cada vez mais questionável. Alem do mais, há implicações morais e éticas nesse conhecimento”. Fritjof Capra, em Pertencendo ao Universo, faz a seguinte reflexão: “…como cientista, você pode descrever uma floresta de maneira eminentemente racional. Mas, se der um passo à frente e penetrar nessa floresta, poderá se sentir emocional, estética e espiritualmente ligado à ela, tendo uma experiência plena, existencial e espiritual. Daí, é só entregar-se à experiência e permitir que ela faça alguma coisa por você, e você por ela!”

Concluindo, eu já fiz parte desse modelo de utilização de animais em pesquisa mas, hoje, não faço mais. Tudo o que vi e que aprendi, me levaram para outros caminhos. Faz aproximadamente 200 anos que a universidade e todos os institutos de pesquisa vivem dessa cultura. Existe uma acomodação (já que está assim, deixa ficar), uma alienação (vamos acreditar que esse modelo é infalível) e uma cegueira moral (vamos continuar com a idéia obsoleta de que os animais são “coisas” disponíveis ao nosso arbítrio).
Penso que o esquema deve mudar, com a proposta de que os animais sejam libertados dessa nossa postura de subjugação. Assim, posso considerar que sou contra a utilização de animais, tanto no ensino quanto na pesquisa. Aceito que isso seja um processo, com etapas, que devem ser conquistadas sucessivamente. Não aceito o argumento de que tudo se resolve com as Comissões de Bioética, que já existem na maioria dos estabelecimentos de pesquisa, como se fossem insuspeitáveis tutoras do bem-estar dos animais, zelando para que tudo ocorra “eticamente”, pois não é bem assim. Com raras exceções, seu caráter é endógeno, sendo formada pelos próprios pesquisadores que atuam em causa própria. Em muitas das vezes, apenas “legalizam” a antiga situação de indiferença para com a sorte dos animais. Também não acho que o debate deva se fazer pontuando casos em separado – como testar vacinas, e a cura do câncer, etc. Temos de entender que não dá mais para “segurar” essa situação. Precisamos mudar! Temos de buscar, todos, outra maneira de se fazer ciência. Não temos o direito de obrigar os animais a pagarem com a vida e com sofrimento, as nossas aspirações.