Papa Francisco abre as portas do céu para os animais

PAPA FRANCISCO ABRE AS PORTAS DO CÉU PARA OS ANIMAIS
Para FE, 2014/15 – Irvênia Prada
Quem assistiu ao filme “O Pagador de Promessas” (1962) há de se lembrar que o matuto Zé faz a promessa de levar pesada cruz ao altar de sua igreja, na esperança de cura de seu estimado burro. A história foca o descompasso entre as santas intenções do devoto e a autoridade do padre, que o impede após ouvir a razão de seu gesto. Pelo seu caráter antropocêntrico, a instituição religiosa pressupõe a existência de alma imortal apenas nos seres humanos, por isso únicos merecedores de promessas.
Mas, de repente, conforme noticiou a mídia, o papa Francisco, que vem mostrando mente aberta a vários assuntos polêmicos, surpreende mais uma vez. Em recente aparição na Praça de São Pedro, ao consolar um menino que chorava pela morte de seu cão, lhe disse: “O paraíso está aberto a todas as criaturas de Deus… um dia vamos rever nossos animais na eternidade do Cristo”. Alvoroço geral! Teólogos discutem e organizações de proteção e defesa dos animais – como a Peta (sigla inglesa para Pessoas pelo Trato Ético dos Animais) e a Humane Society (o maior grupo desse contexto, nos EUA), regozijam-se!
Não é difícil calcularem-se as repercussões: se os animais vão para o céu é porque têm alma, o que implica o dever ético de trata-los com respeito; pânico geral nas empresas que industrializam a carne dos animais; desconforto na utilização de animais em pesquisas; esperanças renovadas para vegetarianos e veganos. E por aí vão…
Mas, este questionamento sobre a verdadeira natureza dos animais não é novidade na Doutrina Espírita, que o antecipou em mais de 150 anos. A literatura espírita é farta em esclarecimentos a respeito do assunto – que condensei no livro A Questão Espiritual dos Animais – Editora FE, 10ª. edição, 2013 -, com informações sobre: a existência de um princípio inteligente nos animais, que sobrevive à morte do corpo (O Livro dos Espíritos – LE – ítem 597); o desencarne e o processo reencarnatório dos animais (LE – 599 a 601); a evolução do ser, tanto física (GE – capítulo X) quanto espiritual (GE – capítulo XI); o processo liberatório da crisálida da consciência nos animais (André Luiz – No Mundo Maior, cap. 3); o mecanismo de aquisição do pensamento contínuo, que se firma nos seres humanos, a partir do pensamento fragmentário dos animais (André Luiz, em Evolução em Dois Mundos – E2M – cap. X); o fato de mostrar-se “o cérebro como órgão sagrado de manifestação da mente, em trânsito da animalidade primitiva para a espiritualidade humana” (André Luiz e seu mentor Calderaro, em No Mundo Maior – cap. 4).
Sempre provoquei reflexões no meio acadêmico, sobre os animais, haja vista o artigo que escrevi em 1989 na Revista de Educação Continuada da FMVZ – USP (“Os Animais têm Alma?”). Hoje fico feliz ao ver que a Biologia, a Antropologia e a Neurociência confirmam dados constantes da literatura espírita a respeito dos animais, demonstrando metodologicamente que são seres sencientes (sensíveis e inteligentes); que as diferentes espécies do gênero humano são evolutivamente originárias do Australopithecus (uma espécie de macaco); que os animais têm consciência (Manifesto de Cambridge, assinado por 26 neurocientistas no Reino Unido, em 2012); e que o cérebro humano se estrutura em blocos herdados filogeneticamente dos animais (O Cérebro Trino em Evolução – Paul Mac Lean, 1970).
Mas, o princípio inteligente dos animais desencarnados não vai diretamente ao “céu”. Há um longo processo evolutivo a percorrer (André Luiz – E2M, 1ª. I e III): “Das cristalizações atômicas e dos minerais, dos virus e do protoplasma… o princípio espiritual… esboçou a estrutura esquelética… ensaiou os sistemas vascular e nervoso… conquistou o instinto e a inteligência e penetrou nas faixas inaugurais da razão.. na romagem para o reino angélico…”
Como diz a canção popular, “a lição sabemos de cor, só nos resta aprender” (que os animais são nossos companheiros de jornada evolutiva).