Laudo Complementar à Prova do Tiro do Laço realizada no Estado do Rio Grande do Sul

Laudo Complementar à Prova do Tiro do Laço realizada no Estado do Rio Grande do Sul (05 de março de 2015)
As diferenças de características das provas de rodeio, de uma região para outra, não suprimem o que há de fundamental em todas elas: o sofrimento dos animais que são constrangidos a participar de um evento que busca diversão exclusivamente dos seres humanos e não deles. Particularmente nas Provas de Tiro do Laço, os animais perseguidos são muito jovens, quase sempre garrotes (designação zootécnica para bovinos de cerca de 12 a 18 meses) e por vezes até bezerros, o que pode ser constatado até pelos correspondentes vídeos disponíveis na internet.
Ao sair do brete o animal dispara em fuga na tentativa de livrar-se da ameaça, isto é, do cavaleiro que o persegue buscando laça-lo. Na vigência de uma situação como esta, o animal entra no que é chamado em Neurociência, de “Síndrome de Emergência de Canon”, que contempla vários sinais fisiológicos como aceleração da frequência cardíaca, aumento da pressão arterial, vasoconstrição periférica, secreção de hormônios como cortisol e adrenalina, aumento do diâmetro das pulilas (midríase) e desagradável sensação de medo ou pânico (sensação relatada por seres humanos, nos quais o processo também acontece, e da mesma forma). Esse conjunto de sinais fisiológicos tem por objetivo preparar o indivíduo para o que os americanos indicam com a expressão “to fight ou to flight”, ou seja, ficar e lutar ou evadir-se rapidamente do local de ameaça.
Animais como os bovinos têm plena consciência do que lhes está acontecendo, e por isso sofrem. Basta nos lembrarmos do texto que ficou conhecido como “Declaração de Cambridge” (The Cambridge Declaration on Consciousness). Em Simpósio Internacional sobre Consciência, no Reino Unido (Francis Crick Memorial Conference), em 07 de julho de 2012, sob a liderança do Dr. Philip Low, da Stanford University – USA, 26 neurocientistas dos mais diversos países decidiram emitir e assinar um manifesto em que declaram: Não podemos mais fazer de conta que não sabíamos… que mamíferos, aves e alguns invertebrados como os octopus (polvos) têm consciência. Essa declaração baseia-se em estudos anatomofuncionais do cérebro dos animais, comparativamente ao cérebro humano, verifcando-se que as estruturas que nos seres humanos relaciona-se com a expressão da consciência, também existem nos animais.
Moral da história – os festejos populares, dos quais participam familiares e amigos, são desejáveis na manutenção da saúde física e emocional das pessoas e da própria comunidade. Mas nada justifica a adição do sofrimento de animais a esses eventos.
Este é o meu parecer.
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Irvenia Luiza de Santis Prada – médica veterinária Profa. Titular Emérita (aposentada) – FMVZ – USP Membro da APMV – Academia Paulista de Medicina Veterinária (cadeira no. 21) Autora do livro Neuroanatomia Funcional em Medicina Veterinária – com correlações clínicas (Editora Terra Molhada)